Foragida e alvo de pedido de extradição, Carla Zambelli rebateu falas e levantou suspeitas sobre a sanidade de Walter Delgatti. Câmara analisa processo que pode confirmar cassação por ataques aos sistemas do CNJ.
Detida em uma penitenciária da Itália, a deputada federal licenciada Carla Zambelli (PL-SP) participou nesta quarta-feira (10), por videoconferência, de uma reunião na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara.
A audiência, que marcou o início da análise de um processo que pode confirmar a perda do mandato da parlamentar, registrou trocas de acusações entre Zambelli e o hacker Walter Delgatti, além de questionamentos da deputada sobre a sanidade do hacker.
Carla Zambelli e Delgatti foram condenada à prisão, pelo Supremo Tribunal Federal (STF), por uma invasão aos sistemas do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Não há mais recursos.
Segundo ela, a versão do hacker, que diz que ela teria determinado a inclusão dos documentos, é mentirosa.
Carla Zambelli afirmou que Delgatti é um “mitomaníaco” e chegou a questionar a sanidade mental do hacker, fazendo menção ao uso de medicamentos para tratar um Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH).
“O senhor não está sabendo do que está falando. Você acha que sabe do que está falando, Walter, porque a todo momento, desde que conheci você, você sempre sabe o que está falando, como se tudo o que você dissesse fosse verdade. Você é um mitomaníaco”, disse.
“Acredita quem quiser acreditar em mim. Quem quiser acreditar em você, acredita. Todo esse processo é baseado no fato de que: ou a pessoa acredita no Walter, ou a pessoa acredita na Carla”, afirmou a deputada.
Por ter sido condenada criminalmente em decisão definitiva, a Câmara precisa dar aval à perda do seu mandato. Em razão da fuga de Zambelli para a Itália, o relator e a defesa consideram o caso inédito na Casa.
Pelas regras da Câmara, a análise sobre a perda do mandato começa pela CCJ, e o resultado da comissão é submetido ao plenário da Câmara. Para que o mandato de Zambelli seja cassado, será necessário o apoio de ao menos 257 deputados, o equivalente à maioria absoluta da Casa.
Segundo a defesa de Zambelli, a justiça italiana autorizou a participação remota da deputada na oitiva de duas testemunhas:
- do hacker Walter Delgatti, também condenada pela invasão ao CNJ;
- e de Michel Spiero, assistente técnico da defesa na ação penal.
Zambelli chora
No final da primeira audiência, a deputada licenciada se emocionou após a oposição utilizar a videoconferência para falar com ela e mandar recados.
A deputada federal Bia Kicis (PL-DF) saiu em defesa de Zambelli e disse que a parlamentar “não está sozinha”. Bia também fez questão de reforçar que a oposição não “abandonou” a deputada.
“A gente espera que o governo italiano não faça essa injustiça [deportar]. Se você estivesse nos EUA, certamente você não seria deportada. […] Ninguém aqui te esqueceu. Ninguém”, disse Bia Kicis.
Bia anunciou, ainda, que uma comitiva de parlamentares deve visitar Zambelli na Itália na próxima semana. Deputados e senadores também esperam se reunir com autoridades italianas.
Condenada pelo STF
Em maio deste ano, Carla Zambelli foi condenada a 10 anos de prisão por participar de uma invasão hacker ao sistema do Conselho Nacional de Justiça. A deputada deixou o Brasil no mesmo mês.
O processo transitou em julgado (não cabem mais recursos). Zambelli deixou o Brasil por terra, rumo à Argentina, e de lá embarcou para os Estados Unidos e, por fim, se refugiou na Itália.
Zambelli foi presa no final de julho pelas autoridades italianas, que a localizaram em um apartamento em Roma. Ela estava na lista de procurados da Interpol, a polícia internacional.
A polícia fez um cerco ao prédio para evitar que ela deixasse o local. A defesa de Zambelli disse que ela se entregou espontaneamente, o que é contrariado pelos registros da movimentação policial. Ela, contudo, não ofereceu resistência à prisão.
A parlamentar está licenciada do cargo por 127 dias. A solicitação foi feita antes da decisão do ministro do STF Alexandre de Moraes pela prisão preventiva de Zambelli. Portanto, conforme a Casa, o prazo começou a contar naquela data e vai até 2 de outubro deste ano.
Fonte: G1 Notícias
Imagem: Kevin Lima/g1